Essa história a vivi quando ainda eram menino na fé e adolescente
na idade. Aceitei o convite para participar de um congresso de jovens,
creio que na simpática cidade de Rubiataba, interior goiano. Aqueles eram os
dias da popularização do movimento de Guerra Espiritual, importado dos EUA, uma
mistura de Pentecostalismo com Zoroastrismo que ainda faz muito sucesso no meio
evangélico.
O movimento é uma espécie de teoria da
conspiração onde de um lado, feiticeiros e demônios lutam contra os
crentes e os anjos do outro pelo controle do mundo. Não quero entrar em
mais detalhes sobre o movimento em si. No entanto eu me lembro que na
primeira noite um cara do altar causou todo um alvoroço emocional (unção)
fazendo a todos se debruçarem em prantos orando e pedindo perdão à Deus pela
escravidão e o maltrato sofridos pelos índios e negros no Brasil. O
argumento era que o perdão concedido por Deus liberaria o ambiente
espiritual local e avivaria o Brasil. Avivamento significaria não um arrependimento
da nação, mas uma reação em cadeia que tornaria todas igrejas tradicionais em
centros de curas e milagres de cunho pentecostal. No meio evangélico a novidade
se torna revelação e é recebida com euforia, da mesma forma que qualquer
tentatia bereiana de verificar a novidade através da luz da Bíblia é
interpretada como incredulidade e até mesmo rebeldia, e naquela noite não foi
diferente, todo mundo entrou na dança, ficava feio diante dos olhos da
liderança não gritar e chorar conforme a melodia tocava. Havia porém um
problema, eu nunca maltratei indio e muito menos possuí escravo, eu era jovem e
ignorante, demorou algum tempo para que eu entendesse que se algum obscuro
antepassado meu cometeu abusos contra indios e escravos, a culpa foi dele e não
minha. Será que haviámos nos tornados Mormons, pedindo perdão por, e
possivelmente também batizando nossos antepassados mortos? Esse é um problema
sério no meio evangélico, os líderes com um alguma cultura geralmente são de
esquerda, e dessa mistura zoroastrica-marxista veio essa ideia ridícula de
fazer justiça social espiritual, de purgar os improváveis crimes de
antepassados anônimados pela historia, a quebra de maldição naquela noite
estava a serviço de Marx, livrando os crentes de supostos “demônios de
estimação” que os perseguiam por causa da luta de classes de outrora. Nada
poderia estar tão longe do evangelho e mais próximo da macumba. Terminado o
congresso a novidade se espalhou entre as igrejas levadas pelos que assistiram
ao evento. A maioria dos pastores julgam se o novo “mover” é bom ou não pelo
resultado prático no aumento na “frequencia e entradas” e nesse sentido a
quebra de maldições, como atração, nunca falha.
Nada é melhor para atrair pessoas e causar
euforia que o misticismo coletivo. A experiência de orar, de cantar, em grupos
de 300, 500 e 1000 pessoas é algo que só a igreja pode trazer, a experiencia é
emocial, dramática, profundamente relaxante e ao mesmo tempo animadora. Não há
nada como começar a semana depois de um cultão pentecostal no domingo a noite,
é revigorante, mas antes de tudo é uma experiencia emocional. Essa força do
pentecostalismo como experiencia é positiva quando acompanhada de ensinos
bíblicos genuínos.
Foi através de fenômenos semelhantes que a
quebra de maldição se popularizou. Não é raro que doutrinas estranhas
provenha de erros de interpretação, e com a quebra de maldição não foi
diferente. Os criadores da teoria conseguiram ligar as consequencias de
atitudes sociais com uma culpa hereditária. Dando a mesma resposta à
pergunta: “Porque coisas ruins acontecem com boas?” A resposta segundo o
movimento da Guerra Espiritual é sempre a mesma, “maldição hereditária. Coisas
ruins acontecem a todos, aos bons, aos maus e aos inocentes, basta se
estar vivo para correr o risco de morrer. Porém gente imatura sempre busca
explicações idiotas para perguntas sem resposta. E a resposta, segundo os
teóricos da maldição hereditária, está em Êxodo 20:6b “Sou Deus zeloso,
que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta
geração daqueles que me odeiam.” esse mesmo texto que é repetido com
pequenas variações por cerca de 5 vezes no Antigo testamento. Para
uma perfeita exegese é necessário entender que a cultura Judaica, e
consequentemente, do escritor não é dualista em sua visão da vida, de Deus
e da existência, para o Judeu comum Deus não luta contra o diabo, mas é
seu Senhor. Portanto tudo que acontece de bom ou de ruim é resultado do
comportamento do homem diante de Deus e não de um ataque do diabo. A partir
desse ponto de vista o texto apenas diz que netos e bisnetos sofrerão
consequências sociais, financeiras e emocionais por causa do estilo de
vida “iníquo” que o indivíduo vive, a palavra traduzida do hebraico para
“iníquo” literalmente é aquele que transgride a lei. Sofrerão os descendentes
de um homem rico se esse vier a perder tudo que possui na prostituição?
Sofrerão os filhos de um assassino pelo estigma social deixado por seus pais
diante das pessoas que relacionam o restante da família com ele? Sim e sim, é
disso que o texto trata, e não de uma perseguição cósmica de um ser onipotente
que coloca na linhagem de alguém um espírito maligno familiar de estimação para
atormentar sua linhagem durante as quatro gerações seguintes.
Os filhos copiam e repetem o comportamento de
seus pais, a sua maneira de relacionar com os filhos, sua reação diante das
diversas situações, nesses casos, uma mudança da vida, através de uma
verdadeira conversão ao evangelho lhe fará infinitamente mais bem que todas as
sessões de quebra de maldições e exorcismo que você queira atender, a
diferença, além do resultado inexistente da quebra de maldição, está poderá lhe
custar mais caro financeiramente que o evangelho grátis de Jesus, e não há nada
mais maldito que herdar a falência dos pais.
Na verdade a teoria dos espíritos familiares
vem de um outro erro de tradução e exegese, a palavra “espíritos
familiares” forma traduzida da palavra hebraica “obe”, que é uma variação de
“ab” da palavra hebraica para “pai” termo de muito respeito e honra na cultura judaica. Muitos
nomes de famosos personagens bíblico começam com esse prefixo “ab”,
Abimeleque, Abinadabe, Absalão, mesmo nome Abraão começa com o mesmo
prefixo “ab”. Seu nome era um nome respeitado que significava “pai de muitos”
ou “pai dos fiéis.” No entanto “obe” é uma variação que ganhou uma conotação
negativa por sua associação com algoreiros e feiticeiros, tomando os
significando de “autoridade maligna” ou “pai maligno”. No Antigo Testamento os
falsos profetas, charlatões, adivinhos, que queriam se passar por enviados de
Deus sempre adicionavam o prefixo “obe” ao seu nome afim de adquirir certo
“status” e respaldo diante do povo. Do prefixo “ab” forma-se também a palavra
“aba” pai, ou aquele que tem autoridade. Portanto o termo que foi traduzido
para a versão em latim da Bíblia como “espírito familiar” foi “obe” que é uma
variação de “ab” e não se refere à família, mas “aquele que tem autoridade” se
opondo inteiramente ao termo “familiaris” do latim que significa “servo
doméstico”. Portanto ao se traduzir “obe” para “familiar” o tradutor cometeu um
grande erro ao inverter o sentido primário contextual pelo qual os
adivinhadores e falsos profetas adicionavam o prefixo “obe” ao seu nome, a
busca de um título que lhes conferisse autoridade diante do povo. A palavra
“obe” ocorre 11 vezes no Antigo Testamento, em Levitico 19:31 ; 20:6 ; 20:27
Isaías 8:19 ; 2 Crônicas 33:6 ; 2 Reis 23:24 ; 2 Reis 21:06 ; 1 Samuel 28:3-25
; 1 Crônicas 10:13 ; Deuteronômio 18:11 ; 1 Crônicas 10:13-14 em todos as vezes
relacionada a algoreiros, adivinhadores e toda sorte de guias e gurus mas
nenhuma vez relacionada a um demônio que habitasse uma árvore genealógica
específica como proposto no movimento da guerra espiritual. Os homólogos dos
“obe” no Novo Testamento são exatamente os falso profetas, mesma classe que
reclama para si autoridade espiritual, afim de enganar os eleitos:
“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas se
levantarão e mostrarão grandes sinais e prodígios para enganar, se possível,
até os escolhidos” (Mateus 24:24). “Ora, o Espírito afirma expressamente que,
nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos
enganadores, e a doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1).
A ironia dessa verdade é que os falsos
profetas da guerra espiritual os mesmos “obe(s)” os mesmos embusteiros
falsos profetas que a Bíblia nos adverte a não consultar e ouvir estão
em nosso meio. Algo que eu não poderia deixar de comentar, e que os “obe”
falsos profetas, adivinhos e algoreiros que viviam entre o povo de Israel
faziam suas mágicas no nome de Yaveh, o que lhes permitia habitar entre o povo
sem encontrar oposição alguma, a pitonisa de Saul é um exemplo claro. O que
Saul encontrou quando consultou a pitonisa seria o mesmo que encontraríamos
hoje em certos meios cristãos que consultam os espíritos em nome de Jesus. A
minha conclusão é que a grande ameaça ao evangelho nunca foi a oposição
reconhecível e aberta de outras religiões, mas vem de dentro, da liderança e
dos falsos profetas que usam seu “obe” para enganar os escolhidos, eles estão
na TV, nos rádios, nos templos e nas campanhas e nunca se cansam, de dia ou de
noite, de enganar os escolhidos.
Sou categórico no que afirmo, e o digo por
experiencia própria, existem dois tempos de ignorância na vida de um
evangélico, um antes da conversão e outra depois da conversão. Cabe a cada um
buscar a luz mesmo que apalpando em meio a escuridão.
***
Wesley Moreira é pastor nos EUA e tradutor. Escreve no seu blog pessoal wesmo.

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